Um WebBook ainda em desenvolvimento. Com algumas palavras a serem corrigidas, mas com uma imaginação toda colocada com os devidos pingos nos "is". Comecem a ler da data antiga para a mais atual, para maior entendimento da história.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

CAPÍTULO PRIMEIRO - TRIÂNGULO


São 6:30 da manhã, hora de todo trabalhador que se preze abrir os olhos e iniciar uma rotina que só irá terminar quando esses mesmos olhos cerrarem-se. Ângelo era mais um desses trabalhadores comuns, que levantam cedo e costumam dormir tarde para poder aproveitar melhor seu dia, já que o cansaço proveniente da jornada o deixa tão ligado que a insônia de inimiga passa a ser companheira de noites mal dormidas. Ele, entretanto não pode reclamar de sua vida profissional, pois como uma minoria nacional coordena uma equipe de desenvolvimento de Marketing em uma empresa multinacional e sem falsa modéstia é muito bom no que faz. Com alma de líder por natureza e uma competência mais do que satisfatória, foi e por várias vezes cotadas para fazer parte da "távola-redonda dos magnatas" da empresa, tornando-se um diretor, mas sempre desconversa dizendo que está feliz com o que faz.
Com quase um metro e oitenta, cabelos e olhos castanhos, barba por fazer e com um "corpão" de fazer inveja como dizia a tia de um amigo seu, Ângelo é um homem com seus vinte e oito anos bem distribuídos, sem marcas do tempo e sim de uma arte que aprontara quando criança que lhe rendeu uma cicatriz imensa em seu braço esquerdo. É um rapaz bonito e possui um jeito de falar bem peculiar: rápido e essa velocidade aumenta quando a emoção torna-se maior. Azedo uma parte do dia e doce até demais em outra, ele possui um senso de humor bem incomum, pois há dias que mesmo as piadas do Ari Toledo não o faz rir de forma alguma, seus amigos do quarteto dizem que ele possui dupla personalidade e deu um boneco do Duas-Caras como presente de Natal enquanto estava na faculdade. Nerd por natureza, ele coleciona bonecos e pôsteres de seus heróis prediletos, DVDs de enlatados americanos e filmes "blockbuster" de mesma nacionalidade. Mangás e algumas katanás fazem de seu apartamento um sonho para qualquer outro Nerd consumista como ele.
Ângelo possui duas nacionalidades sendo que a segunda é nipônica, graças ao senhor Kentaro Miura que o adotou aos seis anos de idade por intermédio de um sonho que teve e o fez chegar até o franzino e solitário menino que estava no Lar Nossa Senhora das Graças. Aparentemente ele foi abandonado por seus pais biológicos com uma carta de explicações cuja mãe atribuía a pobreza sua incapacidade de criar mais um filho. Nunca nenhum outro parente reclamou sua guarda e por isso desde sempre achou que estivesse sozinho no mundo para sempre. Desde criança Ângelo era mais inteligente e esperto do que a maioria dos meninos e essas particularidades faziam dele um garoto especialmente invejado por alguns e idolatrado por outros. Chegou ao orfanato numa cesta de vime, um pedaço de cobertor do São Paulo Futebol Clube e uma carta pedindo-lhe desculpas e que não viesse a odiar sua mãe enquanto crescesse com saúde, pois esta não teria condições de criar uma criança sem emprego e marido. Ângelo queimou essa carta quando tinha 15 anos e também derramara suas lágrimas por ela pela ultima vez jurando seguir em frente com sua nova família, pois já sabia que a sua história não diferente de muitos amigos que conheceu em seu antigo orfanato e aprendeu com o seu velho pai que tudo na vida há um motivo de força maior para acontecer e que se teve que passar por algo assim deveria ter uma razão bem importante.
O pai adotivo de Ângelo  era um antigo historiador japonês que passou a maior parte da sua vida viajando e realizando pesquisas sobre os mais diversos fatos históricos ao redor do mundo e nessas andanças trouxe muitos artefatos milenares que qualquer museu do mundo adoraria de possuir em sua coleção, dentre eles alguns dos quais não poderia ter, pois seria no mínimo propriedade intelectual mundial, mas o seu espírito aventureiro e curioso sempre dizia para que ele tivesse um souvenir que ninguém mais poderia ter. Faleceu aos 89 anos em Osaka, quando Ângelo possuía 17 anos e isso o fez a retornar ao Brasil e reiniciar sua vida no país que o deixou órfão para ser um homem melhor e mais forte. Do Japão trouxe um quadro de seu pai que fica em lugar de destaque na sala e que todos os dias  reza uma oração por sua alma, além de alguns pertences que foi deixado como uma herança cultural e que são algumas lembranças daquele que foi uma inspiração para um menino que não possuía sonho algum, mas que aprendeu a sonhar e conquistar cada um deles.
Seu relógio ecoa pelo quarto todo como se fossem sinos anunciando algo novo ou inesperado sendo que a  meses nada desse tipo acontece com ele. Ângelo namorou Júlia por cinco anos, que com absoluta certeza foram os mais felizes que um homem já vivera. O casal parecia perfeito, possuía algumas brigas corriqueiras, mas eram absolutamente normais, pois possuíam alguns pontos de vista diferentes em relação a algumas coisas, mas um "não" que Ângelo disse a sua amada culminou no fim de um namoro tão bonito e promissor.  Talvez seu maior defeito fosse possuir tal complexo de "Deus" e fazê-lo sempre possuir uma razão maior do que qualquer pessoa e de possuir alguns sonhos em demasia que o fizera escrever um livro de coisas a se fazer enquanto a morte não chega que herdou de seu pai e mentor para deixar a vida sempre em constante movimento. Curiosamente esse complexo não era transmitido para quando estava no trabalho exercendo seu papel de chefe, somente em sua vida pessoal esse mal o atormentava. Ele era o mesmo desde o fim de seu relacionamento: Seu apartamento abarrotado de super-heróis sujos estava mais para Bat-caverna do que qualquer outra coisa. Móveis e objetos fora de seus lugares comuns, empoeirados e clamando por limpeza demonstravam como estava à cabeça dele e de como Camões estava parcialmente errado em dizer que o amor não dói, pois o que realmente dói é a falta dele. A vida de Ângelo tornara-se tão monótona que ele acabou fazendo uma expressão matemática para deixar explícito o quão na fossa estava e que não possuía ânimo para sair dela. A expressão era a seguinte: O dia era resultante da somatória de acordar, trabalhar e dormir e que tudo era igual a um imenso e vazio zero e essa fórmula estava mais para constante do que para uma expressão comum.
Abrindo seus olhos ele senta-se sobre a cama passando a mão em seus cabelos embaraçados pelo sono de mais uma noite mal aproveitada. Olha para a janela que fica em frente a uma vista que antes lhe fizera tão inebriado e que agora não passa apenas de uma visão embaraçada. Ao olhar para o lado arruma talvez seu bem mais precioso na Terra, o porta retrato impecável de seu amor enquanto eram felizes, talvez o único móvel que não havia sido dominado por ácaros e poeira. Ao deixar seu tesouro um pouco de lado ele olha seu smartphone avisando-o que possui uma nova mensagem e ao lê-la lembrou-se que seu dia ontem teve algo de novo, mas que ao final dele o resultado continuou o mesmo.

"Tu vazou e não pagou a conta Mané, tá me devendo umas par! Abrazz. Silas :-)"

Depois de um longo tempo, Ângelo riu e lembrou-se que seus fiéis amigos ainda faziam-no rir como ninguém, mesmo vivendo em um mundo onde o cinza e a poeira predominava. Ele deitou-se novamente na cama e começara a recordar de tudo o que aconteceu depois de mais uma jornada de trabalho.
Seus companheiros de copo, de alegrias e tristezas eram os mesmos desde a faculdade, os famigerados "cavaleiros do apocalipse" que eram o terror daquela instituição. Eles com certeza aproveitavam, mas não eram expulsos porque o pai de um deles possuía um cargo "vitalício" na prefeitura e com uma simples ligação para seus contatos na manga colocaria o velho e barbudo diretor Luis Costa Silva e Silva em maus lençóis. Hoje eles admitem que pegaram pesado com o diretor e prometeram visitá-lo para pedir desculpas, bastando lembrar que disseram isso enquanto brincavam de "vira-vira" com uma garrafa de tequila.
O mais ativo dos cavaleiros era Silas, "carioca da gema" ele era considerado o porta-voz daquele grupo. Baixinho e gordinho, mas com um semblante angelical fazia sucesso com as mulheres devido a sua lábia mais do que original. Diz que ama todas as mulheres e nem se imagina casando um dia, pois não quer sair jamais dessa vida. É o melhor amigo de Ângelo e o defende com unhas e dentes e já chegou a até desmarcar encontros com suas vítimas em seu "matadouro de três cômodos" para conversar e animar seu companheiro. Seus 27 anos estavam bem aparentes, pois sua vida boêmia mostrava o quanto Silas gostava dos prazeres da vida. Seus pais faleceram quando era criança, em um acidente de carro enquanto voltavam de mais um Fla x Flu, já que seus pais eram apaixonados pelo todo-poderoso Flamengo. Silas ainda segue essa tradição, com uma tatuagem de seus pais entre o escudo do clube e carrega o orgulho e certas vezes frustrações por torcer por um time do Rio de Janeiro em uma capital paulista. Foi criado por Seu Maria, dono do boteco onde freqüentavam; seu tio e segundo pai e com quem cresceu e aprendeu a viver nessa cidade.
Gilberto era o tímido e o mais certinho do grupo. Alto e por anos bem magrelo, ele ganhou os típicos apelidos que alguém de seu estereótipo ganha na adolescência, sem falar na breguice inconfundível ao se vestir. Filho do "Comendador Cerqueira Lopes", influente político local, ele era sempre protegido, mas ao invés de tornar-se alguém mimado, ele cresceu contrariando a sua formação e tornou-se uma pessoa humilde em demasia para insatisfação de seu pai. Ele namora desde o primeiro ano da faculdade com Ana, que era sua colega do grupo estudantil e antiga principal rival na presidência do diretório acadêmico. Seus amigos dizem que ela era demais para ele e de certa forma era mesmo, pois sua beleza era estonteante para a dor de cotovelo do resto de seus amigos. Para a alegria do grupo e dos dois pombinhos iriam se casar em breve, mas ainda não tinham uma data específica. Ele era feliz, nega totalmente qualquer ajuda do pai político para orgulho de seus fiéis companheiros e de sua linda futura esposa.
O título de educado e príncipe das mulheres ficava com Eduardo. Seu caráter de boa praça encantava as mais variadas mulheres e sua beleza exótica fazia desse cavalheiro o sonho de qualquer mulher que gostaria de casar-se com o mesmo homem dos desenhos de Walt Disney. Eduardo teve uma infância muito difícil, muito das quais ele não costuma comentar. Seu pai foi embora cedo deixando o fardo de criar uma família nas mãos de um menino de 14 anos. Possui uma inteligência fora do comum que lhe garantiu bolsas de estudo nas melhores escolas do estado. Foi numa dessas escolas da vida que acabou conhecendo Gilberto Cerqueira Lopes Neto, seu amigo até hoje, autor de uma ajuda incondicional por parte moral e financeira. Eduardo possui dois irmãos: Renata e Paulo Sérgio, que por incentivo dele e seu novo amigo, abriram seu comércio no bairro onde moram e estão tocando muito bem o estabelecimento. Eduardo tem paixão por artes marciais e assim que teve uma oportunidade ele ingressou na academia de judô e só saiu quando conseguiu o segundo Dan. Possui uma vida bem reservada para um homem badalado e seus amigos o perguntam o porquê de tamanha discrição para alguém que poderia estar aproveitando a vida de muitas outras formas. Sua mãe dona Maria diz que tem orgulho do filho, mas que não consegue decorar a quantidade de namoradas e aventuras que seu primogênito teve ao longo de sua vida e isso é algo que Eduardo não se orgulha muito.
É possível dizer que ontem foi um dia atípico da vida atual de Ângelo, talvez contrariando a matemática dele, pois foi esse dia que depois do expediente saiu com uns amigos no Bar do Soda, um popular e bem quisto "botequim" freqüentado por ele e seus amigos que depois de um "duro e árduo" dia de trabalho tinham uma recompensa chamada cerveja gelada cercada por vários tipos de guloseimas que somente Seu Maria e Dona Margarida sabiam fazer. Seu Maria é um falso lusitano de uns sessenta e alguns anos, mas dono de uma invejável saúde. De estatura mediana, expressão forte e com certa e demasiada panceta no lugar da barriga, possuía um carisma invejável e raro para alguém que mora em uma cidade tão grande e atribulada como uma capital. Na verdade era tão carioca quanto o Romário, mas que para deixar o velho boteco com uma cara mais charmosa apelava para um sotaque luso-fluminense. Diferente de seu cônjuge, Dona Margarida não tentava ser estrangeira. Quituteira de mão cheia, e com sotaque pra lá de arrastado e como diz Seu Maria esposo: "Importada do Nordeste". Feliz e sempre com um largo sorriso, essa soteropolitana conseguia ser firme como um sargento num quartel e mole como uma manteiga e se a olhassem por cinco minutos era possível perceber quem mandava no galinheiro. A letra "S" na verdade foi trocada quando Seu Maria comprou o estabelecimento com um dinheiro oriundo do jogo de bixo (ele nega até o fim e jura de pés juntos sobre a mãe enterrada que foi um empréstimo), pois na verdade era um "F" que fazia do lugar um estabelecimento todo especial com sua "consoante foneticamente falante". A letra fora escolhida por Seu Maria, pois o nome do meio de Dona Margarida é Solange (dá para ver quem manda).

- Quem diria hein, em plena segundona "tamo tudo junto" tomando uma breja! Isso sim é coisa linda de Deus!
- É Silas meu amigo, eu estava precisando mesmo de tomar uma pra relaxar e, por favor, não use o nome do Homem lá de cima em vão, não sujo mais a sua barra ok?
- Você está na sexta caneca Ângelo, é melhor ir devagar.
- Deixa o meninão beber um pouco Ana, quem sabe hoje não rola um aumento pro seu noivo, aliás, não só pra ele, né patrão?
- Você está despedido Silas já te falei isso hoje?
- Acho que umas sete vezes! (risos)
- Eduardo meu chapa tô pegando uma morena e ela tem uma amiga maravilhosa, pra hoje tá afim?
- Deixa quieto baixinho precisa ir para casa hoje sem falta, mas deixa meu telefone com ela?
- Du, tu me traz uma enorme sorte e é boa pinta pra caramba, mas às vezes penso que você não gosta da coisa. Se eu tivesse sua pinta eu tava feito. Gil, tá afim?
- Eu e o Gil vamos com você, assim fazemos um swing, pode ser?
- Coisa linda tudo isso, é meu sonho (gargalhada geral). Calma Ana, tô brincando!
- Humpf! Você não é boa companhia para ninguém e vê se deixa o Eduardo quieto.
- Bom tô vendo que irei ficar sozinho com as duas já que o nosso amigo Ângelo também não vai.
- Acertou camarada, farei como o Du e irei curtir meu porre em casa.
- Amor você tá quieto por quê? Tá afim do swing é? Fala alguma coisa Gil!

O motivo do silêncio de Gil tornou-se o mesmo de todos da mesa em instantes. Julia e Mauro eram os mais novos clientes do boteco do falso portuga e pareciam mais juntos do que nunca. Gil observara-os desde o começo e sabendo do possível péssimo fim de noite para seu amigo, não dissera nada. O casal estava lá fazia algum tempo, seus sorrisos emparelhados em meio de olhares hipnotizantes e suspiros de adolescentes estavam destacando o velho botequim. Não havia como negar, os dois faziam um belo casal e não que Ângelo e Julia não faziam, mas Mauro era melhor pinta que Ângelo e isso até mesmo Ana já havia dito. O ex-namorado de Julia começa a aumentar o tempo de seus goles em sua caneca e a quantidade de vezes que ela é reabastecida e seus amigos simplesmente declaram aquilo como fim de noite, para tristeza dos cavaleiros e de seu membro mais afetado. Ana levanta-se e diz que vai cumprimentar Julia que é sua amiga desde muito tempo antes do namoro com Gil e recebe um sonoro "traidora" do quarteto.
Mauro era um tipo garoto propaganda: alto, com cabelos escuros e olhos claros, era o sonho de muitas mulheres e fazia o papel do típico galã de novelas. Desajeitado por natureza, andava se esbarrando em paredes e objetos, talvez por isso não se deu bem numa carreira de modelo. Extremamente profissional, ele é o sucessor de Ângelo e isso foi seu chefe mesmo que disse, mas enquanto namorava Julia; agora só Deus e Ângelo sabem sobre sua escolha e Mauro teme que seu promissor futuro esteja de fato comprometido por causa dessa rivalidade. Mauro no fundo esconde certa inveja de Ângelo e não vê a hora de conseguir um cargo de mais confiança naquela empresa. Possui a confiança dele, assim como sua ex-namorada e sabia que em breve conseguiria uma brecha para conseguir muito mais. Não queria perder mais tempo com isso e via em seu chefe um rival e um objetivo a ser alcançado, mas silenciosamente guardava essas convicções secretas para si mesmo e sem que ninguém percebesse estava ganhando mais terreno do que todos os outros que trabalhavam com ele. Já Silas costuma dizer que ele é o próximo no quadro de demissões, sendo que todos sabem que é mentira, mas certa noite perdeu o sono, pois estava convencido pela tal hipótese. Atualmente mora sozinho em um pequeno apartamento no centro, onde por vezes divide com o seu atual amor, pois Mauro já fora noivo e o término de tudo deu-se por uma carta dela dizendo "Me desculpe". Superando isso ou não ele de fato mostra-se muito apaixonado por Julia, para desespero de Ângelo.
Julia, batizada por Silas e Eduardo de Angelo's Ruin ou ruína de Ângelo é muito mais do que uma Helena de Tróia. Perfeita como diria seu ex-affair, ela realmente se impõe no quesito mulher e não fica atrás de homem algum na categoria competência; é o contrapeso de uma guerra dos sexos aumentando ainda mais o poderio feminino diante de fracos homens. Trabalha com comércio exterior e talvez sua fluência em quatro línguas ajude-a um pouco, mas sua agressividade para os negócios faz dela um trunfo para qualquer organização. Julia é muito mais do que um rosto bonito, é inteligente, uma pessoa formidável, alegre e uma rara pessoa que não deixa sua presença ser despercebida iluminando todo e qualquer local que esteja. Ângelo tinha sérias crises de ciúmes por isso, pois dificilmente algum macho deixava de perceber tão perfeita mulher. Filha de médicos, não passou muitos apertos financeiros, mas desde cedo teve que suportar uma pressão de seus progenitores quanto à carreira a ser seguida e seus olhares de repreensão. Silas com seu jeito carioca diz que uma "boa loira ninguém esquece", isso explicaria o porquê Ângelo não consegue. Ela sente um carinho especial por ele e também sabe não é simples, pois o que sente é forte, mas prefere seguir em frente continuando com Mauro e tentar fazer dele uma nova paixão. Ana visivelmente sem graça cumprimentou o casal e bastou Julia ver a expressão de sua amiga para saber que não fizera bem ter insistido com Mauro para freqüentar aquele local, pois sabia por intermédio de sua Ana que seu ex-namorado estava acabado e não se acostumara com tudo isso. Mauro gentilmente e sem precisar disfarçar retirou-se para deixá-las a sós conversando e nesse momento Ana disse:

- Se soubesse como Ângelo está não viria aqui com ele.
- Ele se chama Mauro, por favor. Sei que não é bom, mas não posso sair com meu namorado mais?
- Não a proíbo disso, pois tem todo o direito de ir e vir.
- Então...
- Ângelo está um trapo e nós estamos fazendo o possível e o impossível para que ele volte a sorrir e continuar a viver como sempre foi. Vejo Gil e os outros meninos tentando animá-lo em vão e isso me deixa muito triste, pois gosto muito dele.
- Dá pra ver daqui como ele está, mas você muito bem o quanto sofri com tudo isso também e poxa eu só quero me divertir um pouco e tocar a bola pra frente. Mauro é um homem maravilhoso, carinhoso, bem humorado e me faz muito bem. Espero que Ângelo conheça alguém que o faça sentir assim também.
- Migué...
- Não entendi, Ana.
- Você ainda morre de ciúmes dele e tá falando isso para enganar quem? Só está saindo com Mauro para provocá-lo e se conheço bem esse gênio do cão que tem, quer vê-lo implorar perdão pra você voltar? Não acha que está exagerando? Está na hora de ser menos mimada e voltar logo com ele.
- Mimada? Amiga quem disse que quero voltar com Ângelo?
- Seus olhos dizem tudo isso. Larga a mão de ser orgulhosa, mulher.
- Aninha, estou falando sério. Estou com Mauro porque gosto e estou muito bem com ele. Desejo até ser muito mais do que namorada.
- Não pode estar falando sério. 
- De todo o meu coração, estou sim.
- Bom, espero que esteja fazendo o certo para você.
- Confia em mim?
- Não muito, você é louquinha de pedra e ainda acho que ficará para a titia com esse gênio.
- Apesar do sermão, estou adorando conversar com você. Quando iremos sair novamente, só nós ou em casais?
- Somente nós duas, não há problema algum. O duro é...
- O Gil acharia ruim?
- Não é esse o problema, ele não quer machucar Ângelo. Silas e Eduardo também entrariam na história o chamando de traidor, assim como eu.
- Te chamaram disso é?
- Sim, mas eu não ligo, pois sei que é da boca pra fora.
- Vamos então Aninha, por favor. Você e Gil, Mauro e eu. Podemos aproveitar seu aniversário de namoro, vamos minha amiga, como nos velhos tempos!
- Eu só preciso falar com Gil e Ângelo, você me entende né?
- Entendo, é claro que entendo. São cavaleiros do Apocalipse e possuem o lema dos três mosqueteiros.
- Pois são, cavaleiros bem problemáticos esses, viu! Amanhã eu e Gil almoçaremos e assim que ele aceitar te ligo pra combinar, eu juro!
- Combinadíssimo então vou esperar. Até amanhã minha amiga e se Deus e Gil quiserem iremos comemorar (risos). Mande um beijo pro Ângelo e diga que gostei de vê-lo mesmo de longe.
- Porque não faz isso pessoalmente, hein?
- Engraçadinha.

- Eu darei o recado então, beijinho.

Ana despediu-se de sua amiga com um longo abraço, saiu toda cabisbaixa e triste com essa situação. Ângelo de longe percebeu que por um modo havia separado duas amigas e sentindo-se mal deu sua ultima golada, se levantou e cambaleando dirigiu-se a saída que por um infortúnio costumava ficar o lugar reservado para "ex-namoradas e namorados que não deveriam vir". Silas engoliu seco aquele gole e saiu correndo atrás do amigo, enquanto Ana enfrentou os olhares ríspidos dos dois cavaleiros restantes. Ela não tinha culpa, pois estava dividida entre o amor e a amizade, mas o que Julia disse era verdade: "Um por todos e todos por um". Levantando de supetão e sem dar "tchau" para quem estava na mesa, Ângelo dirigiu-se a saída pisando duro e se orientando pelas luzes de carros no estacionamento. Mauro voltou a tempo de ver seu chefe encarar-lhe e poder ver em seus olhos o quanto aquele novo casal o machucava. Os olhos de Julia e Ângelo encontraram-se, mas o ferido cavaleiro desviou o olhar acenando com a cabeça e dizendo "adeus" ao invés de um simples "tchau". Mauro foi ignorado totalmente da cena, tanto por sua nervosa namorada quanto por seu possível ex-chefe. Silas ao passar correndo cumprimentou Mauro polidamente e com um frio olhar ignorou o cumprimento de Julia. O futuro desempregado disse para Julia que realmente deveriam ter ficado em casa, alugado um filme, comido uma pipoca e não ter saído para vivenciar uma cena digna de novela das oito. Julia concordou e disse para seu companheiro: "Vamos para casa, por hoje é só o eu quero!". Como todo bêbado descoordenado, Ângelo mal consegue colocar entrar em seu carro, acaba ficando nervoso e chuta a roda dianteira de seu Opala preto, uma jóia rara que já fora a menina de seus olhos e que hoje estava mais para saco de pancadas. Silas corre e alcança o amigo, agora estirado no chão por ter se desequilibrado ao dar o chute em sua menina metálica.

- Onde pensa que você vai desse jeito? Tá maluco rapá?
- Me deixa Silas, tô cansado, bêbado e sem motivo nenhum para festejar? Talvez tacar o carro num poste seja minha solução!
- Cara, fala isso sóbrio que arrebento sua cara! O mundo não acabou Ângelo, deixe-a pra lá e vamos curtir um pouco. Tem tanta mulher por aí ainda, larga a mão "fião".
- Não quero outra mulher cara, eu sei que é deprimente. Poxa eu a amo!
- Você sim e ela não, o que vai adiantar? Esse lance de amor não existe ok?
- Existe sim, existe sim! Então porque eu estou assim hein?
- Porque tu é burro! Levanta daí logo senão vai tomar um banho de água fria aqui mesmo.

Silas ao ver seu amigo em deplorável estado, resolve chamar um taxista de confiança para dar uma força a seu amigo pelo menos chegar são e salvo a seu apartamento. Jeremias era um taxista que conheceu quando ele se envolveu em mais uma das muitas confusões e que desde então se tornou amigo e fiel companheiro. Combina com ele por telefone o local e é avisado que dentro de 15 minutos estaria chegando e nem um minuto a mais. O baixinho enfurecido com a tal atitude do amigo começa a esbravejar tentando dar um ânimo a vida de Ângelo:

-Tu pensa que a gente não sofre com você? Tu é meu irmão "Gelão". Du, Gil e eu te amamos cara! Tá na hora de você levantar a cabeça e continuar em frente mermão!
- Sou um retardado mesmo né?
- Total.
- Não pedi pra concordar comigo. Eu não consigo sair dessa fossa do caramba. Você a viu com aquele Mauro de mãos dadas e tudo?
- Vi sim e ela está certa.
- Certa em me deixar?
- Certa me seguir em frente e não parar no tempo como você.
- Você sabe ser duro quando quer também, baixinho.
- Sei abrir os olhos dos meu melhor amigo para seguir em frente.
- Me desculpe por tudo isso. Estou prejudicando vocês todos com essa minha fossa. Percebi que Ana ficou acanhada em cumprimentar Julia, sendo que são grandes amigas. Não quero prejudicar mais ninguém.
- Eu só quero que volte a ser o Ângelo que todos nós gostamos, rapá.  
- Tudo bem, vou melhorar e ninguém vai precisar sofrer por minha causa. Obrigado baixinho, você é um grande amigo mesmo e se me chamar de burro de novo, te mando embora!
- Essa é a oitava vez só hoje (risos). Opa, Jeremias tá chegando aí. Ei irmão,  leva meu chefe para casa você lembra onde é?
- Claro que sei doutor, quantas vezes o senhor chapado já foi pra lá? "Xá comigo!”
- Baixinho eu te prometo que vou melhorar, nem que eu tenha que precisar esquecer tudo o que aconteceu.
- "Qualé" Ângelo, tu é ninja e veio do Japão, mas não é tão foda assim não. Bêbado é uma merda mesmo, fica valente e vira super-herói também (risos). Vai embora e vê se dorme um pouco.



Antes dos 15 minutos esperados, o taxista “gente boa” chega e vê os dois amigos conversando e evita de se aproximar bruscamente por medo de estragar algum assunto importante. “Bicho do mato” como dizia seu maior freguês, ele sabia ser conveniente quando necessário fosse, sendo praticamente uma sombra na maioria das vezes. Veio de Brasília com sua mulher e estava na capital paulista há alguns anos. Conhecera Silas em uma boate da Zona Sul. O baixinho aprontava mais uma das suas e foi "limpo" por algumas meninas que conheceu por lá. Silas estava nu e jogado em um beco atrás do clube, totalmente desmaiado por causa da bebedeira e algumas possíveis drogas que foram colocadas em sua bebida. Ele mal se lembra que seu anjo metálico de quatro de rodas o levou para casa e avisou o porteiro de seu condomínio o que havia ocorrido. Silas ao acordar três dias depois pediu informações para o porteiro, ligou para Jeremias que havia deixado seu telefone e o agradeceu comprando um carro zero:

- Vende esse pau velho aí e compra um novo que eu pago. Se virar taxista, vou precisar de você sempre.
- Doutor eu te levo até no inferno se o Senhor quiser!
- Não precisamos ir pra tão longe não meu amigo, só para onde a mulherada está!

Como um bom cocheiro, Jeremias deixou seu passageiro aos cuidados de Juca, o carrancudo e ranzinza zelador do prédio de Ângelo e fora embora trabalhar por aí, com uma gorda gorjeta de seu mais novo cliente. Entregou as chaves do Opala preto ao porteiro e informou o local de onde estava estacionado, pedindo para alguém ir buscá-lo depois. Juca disse que iria pessoalmente se ganhasse uma carona até lá e com Jeremias foi ao Bar do Portuga resgatar o bólido negro. Silas ao voltar para a mesa bebeu sua última caneca apenas com Dú, pois o casal Gil e Ana foram embora para descansar naquele resto de noite e acordar cedo para resolver alguns assuntos pela manhã. Os dois continuaram a beber por uma hora até que o cansaço fizeram-nos de refém e os mandaram para casa. Silas  deitou em sua cama solitária para dormir o pouco que resta da noite esperando no trabalho verificar o quanto seu amigo progrediu depois daquela conversa. Olhou em seu celular que não teria tanto sossego, pois as felinas queriam ser domesticadas naquela noite, mas para o azar delas teriam que esperar por outro dia. E desligou seu celular.
Agora são 6:31 da manhã e Ângelo ainda está em sua cama, pensando em tudo isso que se passou em menos de um minuto de sua vida. De repente um sorriso incomum vem de sua face e uma risada proveniente de um pensamento bobo faz seu quarto ganhar uma nova cor sem que seja cinza. Ele levanta-se e começa a arrumar seu leito, pensa alto e diz: "Já vi mulheres de funcionários largarem seus maridos por chefes, mas é a primeira vez que vejo o contrário". Depois desse sorriso e de arrumar sua cama, Ângelo enfim está pronto para iniciar sua expressão matemática e imagina um jeito que colocar uma variável para que se tenha um resultado diferente de zero. Então respirou fundo e percebeu que hoje poderia sim ser um dia diferente dos anteriores e que talvez tal variável pudesse enfim fazer parte de sua combalida expressão. Saindo do seu quarto ele vai até um quarto de seu apartamento onde havia alguns pertences de seu velho pai e um presente em especial que recebera antes de vê-lo falecer. Abre uma caixa toda talhada em madeira muito antiga e retira dela um  pequeno tapete para meditação muito empoeirado. O tapete exibe vários símbolos muito antigos oriundos de uma civilização greco-romana e é deixado sobre uma mesa onde o Sol penetrava por uma janela que ele abriu depois de muito tempo, tirando um pouco daquela poeira acumulada por anos. Ele vai para a cozinha comer algo e pensa no que havia dito ao seu amigo, resolvendo executar alguma loucura que estava em sua mente, mas que talvez não tivesse coragem para tal opção. Ele estava indeciso sobre a promessa de melhor e tornar o mundo de todos mais fácil do que atualmente estava só que não sabia ao certo é se poderia cumprir o que havia prometido a seus amigos. Foi quando uma ligação de Ana logo pela manhã colocaria a prova suas promessas e fizesse seu coração criar uma faísca de coragem para começar um incêndio todo. Seu coração bate inquietante, pois para a namorada do seu melhor amigo ligar-lhe logo pela manhã nas vésperas de seu aniversário de namoro com Gil só poderia ser um mau sinal. Seu dia nem começara direito e já estava bem quente...

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